segunda-feira, 30 de março de 2015

Ex-presidente do BC diz que queda é inevitável e que crise econômica foi 'autoinfligida'

Para ex-presidente do Banco Central, a crise brasileira foi ou está sendo forçada para atender interesses a médio e longo prazo do partido que está no poder. 

Gustavo Franco fala de economia com a clareza dos acadêmicos e a sutil ironia que sempre foi sua marca registrada. Aos 59 anos, o ex-presidente do Banco Central de Fernando Henrique Cardoso vê com grande frustração a inflação acima do teto da meta de 6,5% estabelecida pelo BC, tendo ele participado da formulação do plano Real.
Num momento de forte turbulência, Franco, que é atualmente estrategista chefe da gestora Rio Bravo Investimentos, vê com bons olhos os passos do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que está desmontando as armadilhas herdadas do Governo anterior - dirigido pela mesma pessoa, a presidenta Dilma Rousseff. Um estoque de desconfiança  precisa ser esvaziado em meio a pressões por impeachment e um Congresso avesso às medidas petistas.

Pergunta. O que significa a notícia de que a S&P manteve a nota de crédito do Brasil?
Resposta. É uma não notícia. Ninguém pensou que ela modificaria a nota já que a empresa está na frente das outras duas agências de rating e já rebaixou o Brasil quando as outras duas não. Segundo a S&P, o Brasil está exatamente na posição mínima de grau de investimento.
Portanto, de 0 a 10 é uma nota 5, necessária para passar de ano, ao passo que a gente está em 5,5 na Fitch Ratings e na Moody’s. Tanto que se espera que a Fitch vai trazer um downgrade, mas não vai tirar o investment grade, assim como a Moody’s também. Acho que ambas fizeram uma pausa para esperar um pouquinho o melhor momento, esperando um pouquinho o Joaquim [Levy] trabalhar.
Pergunta. A questão do impeachment está muito presente, como mostraram pesquisas recentes...
Resposta. ...Está no preço. Há uma certa maldição na reeleição. É um anti-clímax. Dá uma sensação de que não mudou nada e isso geralmente tem um clima ruim no começo do Governo. Me lembro bem do clima pesado de 1999, mesmo antes da desvalorização. Há uma ressaca que é meio natural. A da Dilma ficou pior, pois a economia vinha pior. Era natural que a presidenta reeleita ou outro presidente que ganhasse trouxesse uma receita de austeridade. Algumas vezes essa receita é bem recebida, outras não. Neste caso, foi mal recebida, porque a presidente disse que não faria. A sensação que ela mentiu se tornou muito clara.
Pergunta. A crise que atravessa o Brasil é comparável à crise econômica europeia?
Resposta.
É uma crise mais leve, autoinfligida, não tem nada a ver com a crise internacional.
É uma absoluta tolice dizer que foi a crise internacional que nos afetou, a nossa está relacionada com medidas macroeconômicas locais equivocadas que deram errado, simples assim. Acordaram a inflação, desarrumaram as contas fiscais, que demoraram muito para arrumar, e, agora temos problemas setoriais, com problemas gravíssimos, como o caso da Petrobras. Tudo muito reversível. Basta desfazer o que foi feito, como no caso Petrobras, claro que tem prejuízos que foram criados em razão de políticas feitas. É necessário desfazer a obrigação que ela tem em fazer investimentos, torná-la mais leve, recuperar credibilidade. Está ao alcance do Executivo, como acionista controlador. O obstáculo é só o de tomar uma decisão que contradiz a sua decisão de anos atrás.
Pergunta. Se numa hipótese extrema houvesse um impeachment, a economia brasileira aguenta o tranco?
Resposta. Aguenta, mas tudo depende do modo que acontecer, se acontecer. O que eu já vejo delineado, nesse momento, é a separação das pautas econômicas do Governo conduzidas pelo Joaquim Levy e as pautas políticas, mais puro sangue petista, que estão encontrando obstáculos enormes no Congresso e uma oposição aberta do presidente da Câmara. Por outro lado, Eduardo Cunhatem se mostrado bastante receptivo às medidas econômicas do ministro Joaquim. Corretamente, ele enxerga como sendo distantes da pauta petista. É uma pauta do país. O que é ótimo como sinal de maturidade do Brasil, aonde o Congresso, com todos os seus defeitos, não quer incendiar a economia.
Ele percebe claramente a necessidade de corrigir as bobagens feitas anteriormente e, portanto, não esta sendo obstáculo ao trabalho do ministro Joaquim. Só é possível elogiar, mas vamos ver ainda as medidas do Levy, que ainda não foram aprovadas, ainda que os primeiros movimentos parecem indicar que vai haver essa segregação. Nisso, Levy lembra muito o ministro Marcílio Marques Moreira, que substituiu Zélia Cardoso de Mello, num momento em que o Governo Collor estava sob pressão política. O ministro Marcílio conduziu bem a economia com certa estabilização, para padrões da época, ate a crise do impeachment atingir o apogeu. (Leia a entrevista completa no EL PAÍS)

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